História da Educação a Distância
Vanilton Vidal
As universidades, desde a sua criação em Bologna, em 1088, e em toda a sua expansão neste período, têm investigado o ensinar e o aprender, pesquisando métodos e técnicas que pudessem ser apropriados pelas instituições para intensificar os processos de produção de transmissão do conhecimento. Mas, ao longo desses mil anos de história, estiveram quase sempre limitadas aos restritivos de tempo e de espaço, obrigando-se a construir edificações onde pudessem armazenar o conhecimento da humanidade. E, nesses mesmos ambientes, promover a interação de pesquisadores, professores e alunos para as atividades de pesquisa para a conquista de novos conhecimentos e para as atividades do ensino, da transmissão do conhecimento às novas gerações.
Mesmo nas interações entre as instituições, nos programas de cooperação interinstitucionais, o campo de realização das pesquisas, do ensino ou das atividades de extensão era, via de regra, o de uma ou o de outra instituição. Quando muito, uma outra área geográfica delimitada para uma ação específica. Mas sempre um campo determinado no tempo e no espaço.
Corrrespondência
A educação a distância surgiu para o ensino superior como um recurso para fazer chegar aos alunos que não podiam participar das atividades realizadas no campus pelas restrições de tempo e de espaço. A solução encontrada foi buscar o uso das tecnologias da comunicação disponíveis para o tráfego de conteúdos, atividades de aprendizagem e avaliações entre professores e alunos. No Século XIX e até o primeiro terço do Século XX, a principal solução para a educação a distância estava ancorada na produção de materiais impressos com distribuição via Correios, uma era conhecida por "ensino por correspondência".
No segundo terço do Século XX, as instituições passam a utilizar os recursos do rádio e da televisão para a difusão de programas educacionais, agregando como suporte e apoio materiais impressos encaminhados via Correios.
Redes
No último terço do Século XX, surgiram as transmissões de televisão por satélite, propiciando alcance continental a programas educacionais, cursos distribuídos por meio de fitas de áudio e de vídeo, os programas de aprendizagem assistida por computador, os CD-ROMs, as redes de informação para troca de dados. Na última década, ocorreu o uso intensivo das redes de informação a partir da expansão da internet. Neste último terço do século, surgiram no ensino superior instituições dedicadas exclusivamente à educação a distância com perfis próprios em metodologia e uso de tecnologia.
Aulas on-line
Na Inglaterra surgiu a Open University; em Portugal, a Universidade Aberta; e, na Espanha, a Universidad Nacional de Educación a Distancia, estruturadas nos anos 70 e 80 para utilizar materiais impressos entregues via correios como meio principal, migrando ao final do século para o uso integrado da Internet. Nos Estados Unidos nasceu a National Technological University, inicialmente com aulas transmitidas por televisão para todo o país e, na virada do século, migrando para o uso de aulas on-line transmitidas via internet.
Outros países, como Índia, Paquistão, Equador e Canadá, criam também universidades a distância. Em todas as instituições, a chegada da internet e dos recursos desenvolvidos para a comunicação pela rede provoca transformações.
O cenário atual, do uso intensivo dos recursos da comunicação e das tecnologias da informação por redes pela educação não é um fenômeno localizado. A transformação da sociedade está na cultura das trocas humanas que as tecnologias passam a permitir. Por conseguinte, também atuando nas formas de interação em direção ao conhecer, aos novos modos de ensinar e de aprender.
Novo papel do professor
Durante todo o Século XX, os principais teóricos da pedagogia e da psicologia da aprendizagem escreveram que o conceito da sala de aula "bancária" estava obsoleto para a educação e que era necessário buscar estratégias e mecanismos para democratizar as relações na educação, valorizar os saberes e permitir a expressão de todos os agentes.
Métodos inovadores em direção a uma escolarização construtora do conhecimento para professores e alunos foram desenvolvidos e implementados, demonstrando que a sociedade estava em busca de novas formas para o ensinar e o aprender. A forma expositiva de ensinar não encontrava mais eco nas expectativas dos aprendizes, provocando a necessidade de um novo papel para o professor e de novos recursos para dinamizar e enriquecer o processo.
Pedagogia inovadora
O cenário dos anos 90, com a crescente apropriação dos recursos das tecnologias da comunicação e da informação pela educação, traz, portanto, a consagração de um movimento integrado: o uso das tecnologias em sintonia com práticas pedagógicas inovadoras. Este cenário de mudança e incorporação tecnológica pelas instituições, e de mudança comportamental dos agentes aluno e professor, está obrigando a modernização do ensino presencial e abrindo novas oportunidades para atuação das instituições da educação a distância.
O ensino presencial flexibiliza-se com a informatização dos serviços administrativos e acadêmicos oferecidos também via rede, exigindo das instituições criatividade e agilidade para encontrar soluções tecnológicas adequadas e preparar seus colaboradores para esta transição.
Integração virtual
A educação a distância, com o uso destes novos recursos tecnológicos e estratégias de aprendizagem, rompe com o conceito de separação física entre o aluno e o professor e busca a aproximação dos agentes pela integração virtual mediada pela internet, pela videoconferência ou por outros sistemas interativos.
Os alunos têm acesso direto a conteúdos, bancos de dados, atividades de aprendizagem, exercícios de correção automática e podem recorrer à orientação de professores em qualquer tempo e a partir de qualquer lugar. O cenário atual é o de interatividade crescente pela internet, com o uso de recursos multimídia em áudio, vídeo, simulações e realidade virtual em crescente com a implantação das redes digitais.
Com a possibilidade de uma estimulação multimídia para alunos presenciais ou a distância, é possível aumentar a capacidade de atendimento no ensino presencial, atender alunos a distância com flexibilidade em tempo e espaço, obter redução no tempo de aprendizagem, reduzir o período de supervisão necessário, aumentar a relação professor/aluno, e reduzir custos finais, democratizando assim o acesso à educação, meta maior do compromisso dos educadores.
Flexibilidade temporal
Rompe-se, assim, ao final do milênio, com um ensino superior elitizado pelas próprias características do sistema de oferta que foi possível de se estabelecer no início, e de como foi possível a sua transformação ao longo do tempo. A sociedade requer hoje que a informação e a educação lhe sejam entregues e disponibilizadas com o mínimo de deslocamento e com maior flexibilidade temporal.
A economia solicita profissionais em permanente qualificação, adquirindo conhecimentos aplicáveis de imediato ao posto de trabalho. Os pesquisadores atuam em rede, cooperando em inteligência e sistemas, aumentando a velocidade da produção científica.
Não é mais suficiente oferecer educação de qualidade apenas com o modelo anterior. É preciso que as instituições de ensino superior tenham domínio técnico e metodológico para satisfazer as novas necessidades de conhecimento e que possam atuar de maneira interativa, para além das fronteiras do campus universitário.
Transição
Esta transição para além das fronteiras do campus universitário passa, com certeza, pela diversificação no atendimento, oferecendo educação de qualidade de acordo com os requisitos de flexibilidade e economicidade. A conquista desse novo patamar para as relações das instituições de ensino com a sociedade está representada no domínio das novas tecnologias e no uso pedagógico adequado delas.
Hoje compreender este fenômeno e estar instrumentalizado para operacionalizá-lo é vital para a o ensino superior brasileiro. Surge então, como uma proposta de compreender e atuar positivamente nesta transformação, o iuvb.br.
EAD no Brasil
A história da educação a distância tem um ponto claro de ruptura com a expansão da internet na metade da década de 90. O uso intensivo de tecnologias da comunicação e da informação transforma o conceito clássico de "distância", até então de uma separação física entre o aluno e o professor ou a instituição de ensino, para um conceito de integração virtual entre os agentes do processo de ensino-aprendizagem que se estabelecem.
A tecnologia da internet e a criação de ambientes virtuais de aprendizagem para interface web tornaram possível um cenário de trocas de aprendizagem, de atividades colaborativas, acesso a conteúdos e bibliotecas virtuais complementares, em qualquer tempo e lugar.
Grandes empresas como IBM, Xerox, Motorola e Nokia, por exemplo, perceberam rapidamente o potencial educacional das redes de comunicação e criaram as universidades corporativas. Os institutos tradicionais de educação a distância buscam complementar suas linhas de produtos tradicionais com a criação de cursos on-line.
As instituições de ensino superior miraram-se no conceito de universidade virtual para fazer a universidade on-line e, em seguida, iniciaram a formação de consórcios nacionais e internacionais de cooperação integrados por rede.
Comunicação vertical
No campo pedagógico, a forma de comunicação vertical entre os agentes é obrigada a requerer aposentadoria. Professores e alunos tornam-se autores e trabalham em rede. No campo tecnológico, os sistemas de ofertas de cursos a distância são obrigados a se instrumentalizar para o novo cenário e a rever conceitos e práticas.
Entre as opções de modernizar ou desaparecer, as instituições brasileiras dedicadas à educação a distância atuam rapidamente para desenvolver novas estratégias pedagógicas e dominar as tecnologias emergentes para a produção de materiais instrucionais e oferta de cursos.
Ambiente de troca
A internet surge, de fato, como o grande ambiente de trocas de aprendizagem entre alunos e professores, de consulta imediata a bancos de dados e como mídia de entrega instantânea para alguns conteúdos, em convivência complementar com alguns dos meios anteriores, agora redirecionados. A produção de materiais impressos, para cursos com maior carga de leituras, por exemplo, continua presente. Ambientes de simulação avançada têm performance adequada para uma mídia como o CD-ROM, em função das baixas velocidades de acesso para a maioria dos usuários.
Surge assim uma EAD estruturada, ora em bases de Mídias Integradas, ora em bases de Convergência de mídias. A EAD com base no conceito de Mídias Integradas acontece quando o uso conjugado de diversas mídias é levado em consideração, orientado para a natureza do conteúdo que será trabalhado, e, principalmente, para os perfis de acesso tecnológico e de repertório de hábitos e habilidades dos alunos a distância.
Convergência de mídias
Os processos de EAD com base no conceito de Convergência de Mídias ocorrem quando a disponibilidade de redes de alta velocidade permite que a internet seja utilizada como meio multimídia de alta performance. O cenário tendencial da virada do século é o de uma intensificação de processos pela internet, agregando performance multimídia na proporção do aumento da velocidade de conexão para o tráfego de dados como usuário final.
A convivência entre os sistemas não tem sido motivo de acomodação para as instituições de maior tradição na educação a distância brasileira. Desde os pioneiros institutos profissionalizantes, nascidos na década de 40, até as recentes redes de cooperação universitária que surgem em 1999 e no ano 2000, estão todos atentos para a grande transformação provocada pela internet.
Para afirmar ou redesenhar o perfil de inserção no mercado, as instituições oscilam entre ampliar o leque de produtos para aumentar o alcance de maior distribuição que a internet propicia ou, por outro lado, especializar-se num nicho que pode trazer matrículas expressivas pelo fato de poderem ter produtos ofertados em diversas comunidades ao mesmo tempo. Outra área de decisões estratégicas tem sido a de se optar entre buscar soluções próprias em tecnologia para a educação on-line ou adotar modelos oferecidos por empresas especializadas.
Ondas tecnológicas
A nova onda tecnológica acena para a inovação pedagógica pelas oportunidades de interatividade e estimulação multimídia à aprendizagem, para a ampliação da capacidade de atendimento de alunos pela maior capilaridade, para a redução de custos e novas formas de cooperação técnica e acadêmica com empresas, organizações sociais, agências governamentais e entre instituições de ensino.
A grande corrida é pelo domínio das ferramentas que instrumentalizam o que se denominou a terceira geração do ensino a distância. A primeira geração foi identificada como a do uso de materiais impressos como mídia principal, encaminhados pelos Correios aos alunos.
Segunda geração
A segunda geração somou aos materiais impressos o uso da televisão, do rádio, de fitas de áudio e vídeo e da telefonia. A terceira geração chega com o uso das redes telemáticas, notadamente com a internet apresentando-se como um meio tendencial para a convergência de mídias, flexibilizando radicalmente o processo em tempo e espaço e permitindo uma performance inusitada para os atores.
A indústria do software atuou rapidamente neste cenário, oferecendo às instituições de ensino pacotes prontos para o uso educacional da internet. Chegaram ao mercado, inicialmente, como ferramentas administrativas e de modernização do ensino presencial e, num segundo movimento, como ambientes virtuais de aprendizagem voltados para o ensino a distância.
Divisão em blocos
As universidades dividiram-se em dois blocos em todo o mundo: as que desenvolverem ferramentas próprias ou que adotam as soluções do mercado. Nascia assim o ensino a distância on-line[1].
O Brasil não perdeu terreno nesta área e, já em 1995 e 1996, produzia soluções próprias com os sistemas da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo; Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe), Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), Faculdade Carioca (Univir), no Rio de Janeiro; e Universidade Federal de São Paulo (Escola Paulista de Medicina). Em 1997 a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro lançou também ambientes para a oferta de cursos on-line.
A Ufsc desenvolveu ambientes virtuais para aprendizagem on-line e também para uso consorciado como suporte para aulas por videoconferência. A Universidade Anhembi Morumbi criou ambientes para a oferta de programas de extensão e especialização em moda, turismo e marketing e apesquisa em design para educação por internet.
Parcerias
A Escola Paulista de Medicina desenvolveu competência com a oferta, via internet, de materiais suplementares em biologia molecular e genética aos alunos de cursos regulares de graduação da área da saúde da Unifesp. O núcleo Univir, da Faculdade Carioca, pesquisou ambientes virtuais de aprendizagem e formou parcerias, criando universidades corporativas via internet.
Na Ufpe, o grupo de pesquisa Virtus produziu ambientes para flexibilizar pela internet o acesso dos alunos presenciais aos conteúdos e atividades de disciplinas regulares e, em seguida, utilizou as plataformas desenvolvidas para oferecer programas exclusivamente a distância em diversas áreas.
No Rio de Janeiro, em 1997, a PUC lançou o AulaNet, ambiente para autoria de cursos alimentado diretamente por alunos e professores. Estas universidades respondem, portanto, pela chegada e implantação no Brasil dos recursos da 3ª Geração de Ensino a Distância.
Interação
A bibliografia contemporânea caracteriza estes exemplos brasileiros como universidades tecnológicas de terceira geração de educação a distância, ou de universidades tradicionais extensivas. O primeiro conceito, universidades tecnológicas, implica na oferta e expansão por sistemas computacionais de informação dos serviços e oportunidades que um campus ofereceria aos alunos, e aponta para "um aprendizado on-line assíncrono efetuado através da internet e para o maior uso dos sistemas de conferência via computador (on-line - videoconferência síncrona). Esses sistemas permitem que os estudantes interajam entre si e com seus professores, assim como acessar um crescente grupo de recursos educacionais disponíveis na web".[3]
O segundo conceito, de universidades tradicionais extensivas, implica na criação de núcleos avançados de recepção de aulas em outros ambientes, o que pode ser feito com o uso de sistemas de teleconferência ou de videoconferência.
Atendimento sem fronteiras
Ao mesmo tempo, mais de 20 outras universidades iniciam-se na educação a distância on-line com o uso de soluções de softwares de mercado, colocando finalmente as atenções do ensino superior brasileiro para o atendimento de alunos além das fronteiras do campus, sem o necessário deslocamento de professores e técnicos de apoio. No ano 2000 o número de instituições de ensino superior que apresentavam soluções próprias no Brasil já ultrapassava a casa de uma dezena e meia.
- a conquista deste novo patamar para as relações das instituições de ensino com a sociedade está representada no conceito Educação Virtual. Hoje, compreender esse fenômeno e estar instrumentalizado para operacionalizá-lo é vital para a sobrevivência e o crescimento das instituições de ensino superior brasileiras. Os indicativos de que esta mudança está ocorrendo continuamente podem ser identificados nos seguintes fatores e considerações:
- a demanda dos alunos por novas formas de aprender, provocada pelas gerações que ingressam no ensino superior, trazendo já como um hábito o aprendizado pela descoberta com o uso de sistemas multimídia interativos, exigindo uma mudança no papel do professor, abandonando a forma expositiva de ensinar até então praticada. Professores passam a trabalhar como autores de estratégias de aprendizagem, modeladores de conteúdos e orientadores da apropriação a ser feita pelos alunos;
- a virtualização dos serviços administrativos e acadêmicos oferecidos num câmpus universitário: disseminação e uso intensivo de redes de comunicação e de tecnologias da informação, permitindo a professores e alunos o acesso a murais de informação, bancos de dados, conteúdos e atividades de aprendizagem realizados em sala de aula, formação de grupos de estudo e intercomunicação a qualquer tempo e a partir de qualquer computador conectado à internet;
- a redução dos custos de equipamentos de informática, permitindo acesso crescente a computadores mais baratos e com maior capacidade de processamento, o aumento das velocidades de transmissão de dados e o barateamento das tarifas no setor;
- · a demanda crescente por educação continuada, onde o profissional de nível superior requer atualizações permanentes em conhecimentos e habilidades para enfrentar os desafios e exigências do mercado de trabalho;
- a internacionalização do conceito de competência aplicada ao trabalho, provocando a desregulamentação do diploma em diversas áreas e permitindo ao profissional atuar em mais de uma área de trabalho ao longo da carreira, exigindo, por conseqüência, formações profissionalizantes complementares sem o afastamento do posto de trabalho;
- o aumento da competitividade entre as universidades, provocado pela saturação dos mercados para cursos presenciais pela oferta de vagas acima da capacidade de assimilação do mercado em algumas áreas, provocando uma busca pela diferenciação de produto e modalidade de atendimento entre as instituições;
- a necessidade de se expandir as fronteiras físicas dos prédios e salas de aula tradicionais, descentralizando a informação e rompendo os limites do bairro, da cidade, do estado e do país;
- a necessidade de criação e fortalecimento de parcerias interinstitucionais para a capacitação de recursos humanos especializados, transferência de tecnologias, cooperação científica e ampliação das áreas de excelência;
- a necessidade de se desenvolver pesquisa aplicada e formação de núcleos de educação a distância e tecnologias interativas de comunicação;
- a necessidade de união de esforços entre as instituições brasileiras para enfrentar a competitividade com instituições internacionais que começam a ofertar cursos no Brasil;
- o reconhecimento da legislação brasileira da certificação de cursos pela modalidade da educação a distância como equivalentes ao ensino presencial.
Ciclo anterior da EAD no Brasil
Uma leitura estruturada do cenário anterior pode ser feita com maior nitidez ao se olhar a história nacional da área, observando o tipo de agência que se estabeleceu para cada uma das ações brasileiras de EAD. Existiram ciclos claros quanto ao agente que implementou a ação: de natureza pública, privada, organização social, religiosa ou corporativa, e também podem receber classificações quanto ao propósito que a ação de EAD visava: educação aberta ou livre, iniciação profissionalizante, educação supletiva não-formal, educação supletiva formal, educação profissionalizante, continuada, e, agora na nos anos 90, mesmo antes do advento da regulamentação da EAD prevista no artigo 80 da LDB, ações de EAD como alternativa equivalente para todos os níveis de educação, programas de graduação, de licenciaturas complementares e de pós-graduação.
Quanto ao agente que implementou a ação, três grandes grupos ocupam o primeiro plano e concentram as iniciativas de alcance nacional. O poder público, com diversas instâncias do Governo Federal liderando projetos regionais ou nacionais de grande porte executados através de convênios patrocinados pelo Ministério da Educação; fundações organizadoras de consórcios, reunindo emissoras de televisão comercial ou educativas em parceria com agentes corporativos ou governamentais, que patrocinaram cursos voltados para o aumento da escolarização da força de trabalho; e institutos privados de iniciação profissionalizante aberta, atuando na venda direta e avulsa de kits de auto-aprendizagem.
Num segundo plano, temos o registro de ações com alcance estadualizado ou regional, implementadas por emissoras educativas de alcance restrito, governos estaduais, organizações não governamentais, universidades públicas e privadas, e centros de ensino voltados para o uso de tecnologia aplicada à educação.
Suplementação em cultura geral
A identificação dos agentes do primeiro plano e de suas ações de EAD permite delinear com segurança uma demarcação clara entre as ações de caráter governamental, de fundações organizadoras dos consórcios, e dos institutos privados. O governo federal centrou os seus esforços em tentativas para suplementação em cultura geral, ensino supletivo, e a oferta de programas emergenciais de formação mínima para o exercício do magistério, principalmente para tentar suprir carências junto a professores em exercício nos então ciclos de 1º e 2º Graus nos anos 70, e atuais Ensino Fundamental e Médio.
Através de convênios liderados pelo Ministério da Educação com governos estaduais, universidades e outras instituições educacionais, uma grande parte dos programas criados com estas características previam atendimento aos alunos a distância, chegando até à certificação para o exercício do magistério e pontuações para a progressão funcional na carreira de professor em escolas municipais, estaduais e federais. Dentre os programas mais representativos desta ação governamental estão o Projeto Minerva, o Projeto Logos e o Projeto Saci.
Fundações
As fundações organizadoras de consórcios, num ranking liderado pela Fundação Roberto Marinho, Fundação Padre Anchieta e Fundação Roquete Pinto, atuaram ora como um braço que dá agilidade a iniciativas do Governo Federal, ora como entidades autônomas em seus projetos e que buscam o suporte financeiro para realizá-los junto ao próprio governo ou a patrocinadores corporativos com interesses afins com o projeto educacional oferecido. Assim, por exemplo, o Ministério da Educação bancou junto à Fundação Roquete Pinto a série Um Salto Para o Futuro, atendendo a professores do Ensino Fundamental, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo patrocinou a Fundação Roberto Marinho para a produção de telecursos supletivos para o Ensino Fundamental e para o Ensino Médio e, de telecursos profissionalizantes veiculados por sinal aberto de televisão pela Rede Globo, TV Cultura (Fundação Padre Anchieta) e TVE-Rio (Fundação Roquete Pinto). No Rio Grande do Sul, esse papel coube à Fundação Padre Landell de Moura, atuando na educação profissionalizante, e no Ceará, à Fundação Demócrito Rocha.
Mas, apesar dessa vinculação entre o patrocinador e a possível clientela a ser beneficiada com os programas criados, as fundações não atuaram como instituições de educação a distância, uma vez que não ofereciam diretamente sistemas de suporte de aprendizagem aos alunos, como tutoria, avaliação e certificação.
Institutos privados
Os institutos privados de iniciação profissionalizante aberta, capitaneados pelo Instituto Monitor e pelo Instituto Universal Brasileiro, atuam desde 1939 e de 1941, respectivamente, sem a demarcação de uma clientela organizada por critérios profissionais ou por características sociais comuns. Ao assumir uma identidade de prestação de serviços com seus usuários, que compram kits de auto-aprendizagem, eles procuram e tentam garantir a sobrevida de seus empreendimentos, ajustando o leque de ofertas às principais expectativas de ocupação própria ou de empregabilidade potencial.
A divulgação dos cursos oferecidos, que inicialmente centravam-se em atividades domésticas, como o corte e costura e culinária, ou de habilidades em mecânica ou eletrônica básica, hoje incorpora o ensino de línguas, de informática e de preparação para exames supletivos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, de acordo com as peças de propaganda distribuídas por esses e outros institutos similares em balcões da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos em todo o país. Centrados num modelo de auto-aprendizagem, estes institutos oferecem suporte remoto aos alunos para a correção de testes, resposta a dúvidas e certificados de conclusão.
Inovação tecnológica
As ações de EAD dos agentes que ocupam o segundo plano de ação, com a oferta de programas de alcance regional ou estadualizado, não fogem à classificação anterior. Experiências como as da TV Educativa do Maranhão ou do Ceará, por exemplo, muito ao contrário de significarem inovação tecnológica na educação, estavam lidando com a carência de professores para o ensino dos conteúdos já pré-formatados em apostilas e vídeos.
Uma linha a se acrescentar nestas ações é a oferta de programas voltados para uma educação para a cidadania, como a experiência das escolas radiofônicas de alfabetização no interior do Nordeste no início dos anos 60, implementadas pela Conferência Nacional do Bispos dos Brasil através do Movimento Educacional de Base e dos programas de educação a distância por fascículos produzidos pela de Brasília, na segunda metade dos anos 80, abordando temas ligados à Constituição de 1988 e ao uso de drogas, por exemplo. Foram, portanto, ao longo da história, inúmeras iniciativas. A grande maioria delas interrompidas por problemas de continuidade.
Redes universitárias para cooperação em educação a distância
A criação de s virtuais no Brasil, na forma de consórcios de cooperação universitárias, integradas por redes de informação, significa um novo marco, uma ruptura na história da educação a distância brasileira. Para implementar estas redes, formam-se quadros universitários especializados em todo o país. A criação dessas competências em educação on-line, além de induzir a modernização metodológica e tecnológica de institutos e empresas dedicados à educação a distância, está propiciando a transformação do ensino presencial pela virtualização dos serviços administrativos e acadêmicos oferecidos pelas instituições de ensino.
Redes de cooperação: a nova condição para a competitividade
O novo fenômeno que surge na educação a distância brasileira voltada para o ensino superior é a formação de redes de cooperação nos anos de 1999 e 2000. Pode-se dizer que uma nova geração metodológica e tecnológica passa a ocupar o primeiro plano, com a criação de redes de pesquisa e produção de cursos a distância. Esta proposta não pode ser confundida com o fenômeno dos protocolos de intenção pela criação de consórcios de cooperação universitária para educação a distância dos anos 70 e 80. Naquelas iniciativas, consórcios foram instituídos, mas, com vida efêmera e sem resultados consolidados, desapareceram como se nem houvessem sido criados.
O dado novo que surge no ano 2000 é a formação de redes de cooperação por agência própria das instituições. Claramente surgem duas grandes redes: Rede Brasileira de Ensino a Distância, um pool de 10 instituições privadas e comunitárias cobrindo todas as regiões do país e o consórcio Unirede, com a proposta de criação da Virtual Pública do Brasil.
Cursos on-line
Um fator determinante que mobilizou a criação dessas redes é o cenário de competitividade internacional, que trouxe para o país ofertas de cursos on-line a partir de 1997 e 1998: s internacionalizadas que, inicialmente, ofereciam cursos em inglês e espanhol, mas que, a partir de 1999, passaram a oferecer conteúdos e tutoria já para a língua portuguesa.
Ainda que se considerasse a restrição legal para o reconhecimento no Brasil de cursos feitos a distância, com a exigência de validação por instituições nacionais com cursos reconhecidos na mesma área e nível de formação, a venda no país de cursos produzidos fora surgiu como um mercado promissor para instituições transnacionais voltadas para a educação a distância, com centros de produção e controle na Espanha e nos Estados Unidos, principalmente.
Para enfrentar o volume de produções internacionais na área, a condição de instituições isoladas produzindo EAD, como a Ufsc, a UnB, a Ufpe, a Anhembi Morumbi, o Centro Universitário Carioca ou as s Católicas de Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre, poderia não ser suficiente. Os investimentos necessários para o treinamento de professores, produção de ferramentas para a educação on-line, produção e sistematização de conteúdos, sistemas de administração, marketing e taxas de teleprocessamento representavam cifras além do horizonte de uma única instituição.
Redes
As alternativas seriam, numa primeira hipótese, que o poder público criasse uma estrutura própria, uma a distância, como fizeram os governos da Inglaterra, Espanha, Portugal, Índia e tantos outros, ou que grupos de s atuantes no ensino presencial buscassem formar redes de cooperação para a empreitada. A segunda alternativa foi a adotada pela Rede Brasileira de Ensino a Distância, constituída formalmente em junho de 2000 e com oferta do primeiro curso de Preparação de Professores Autores e Tutores Para Educação Distância lançado em 24 de agosto do mesmo ano.
O fator de inovação dessas redes, além do consorciamento institucional, é que o cenário tecnológico permite agora a integração virtual entre as instituições, não se fazendo necessária a criação de uma estrutura centralizada que viesse a sediar conteudistas, tutores, equipes técnicas e equipamentos.
Modelo
Para compreender o fenômeno das redes é preciso considerar o modelo anterior de a distância, uma unidade produtora e controladora central, que apenas redistribuía para centros de apoio distantes os materiais instrucionais, testes de avaliação e tutores para orientar alunos. Neste modelo nasceram as instituições que marcaram a educação a distância em todo o planeta no último terço do Século XX.
O novo modelo, na verdade emergente também na Europa e na América do Norte, atua descentralizado, onde cada instituição agrega competências acadêmicas e tecnológicas para formar s virtuais no ciberespaço. Ao invés de edificações, constroem-se conceitos, marcas e regras de cooperação e convivência.
A quarta geração
As estratégias emergentes neste processo de criação de redes de cooperação sinalizam uma quarta geração de educação a distância no Brasil, onde o conceito de universidade virtual operacionaliza-se no ciberespaço. O maior desafio é de natureza comportamental. Hábitos de trabalho em rede estão sendo desenvolvidos. A integração às competências acadêmicas e tecnológicas de outras instituições processa-se com recursos de colaboração via rede, exigindo evolução e criação de sistemas baseados em plataformas abertas.
Estes cenário de cooperação, presente nas redes nascentes, consolida-se na oferta de produtos de qualidade por educação a distância com a apropriação de tecnologias de comunicação e informação, desenvolvendo aplicações para o seu uso especialmente para o cenário brasileiro. Os resultados estão produzindo no Brasil um novo cenário de características de processo e de resultados educacionais capaz de romper com um arcabouço de teorizações e de procedimentos que, até então, vem subordinando a compreensão e o planejamento educacional na área.
Novo desenho institucional
Mesmo no cenário de anterior, as instituições apresentavam soluções para a demanda de aprendizagem de grandes parcelas da sociedade que não reuniam condições suficientes para o deslocamento e a permanência junto às edificações acadêmicas. As universidades, desde o final do Século XIX, buscavam criar mecanismos para atender alunos por educação a distância, utilizando sempre as mídias disponíveis e apropriadas como recurso para a entrega de conteúdos e atividades aos alunos e para o atendimento destes em questões de tutoria, avaliação e acesso a bibliografias complementares.
No desenrolar do Século XX, as instituições de ensino superior que desenvolveram ações por educação a distância foram, progressivamente, incorporando os recursos da comunicação pelo correio, por rádio, por televisão e por videoconferência; além dos os recursos de atividades baseados em computador e depois os da comunicação em rede, recursos de armazenagem de conteúdos em mídias impressas, fitas de áudio, fitas de vídeo, disquetes, CD-ROM e, recentemente, o DVD. Esta trajetória mostra não apenas a evolução dos sistemas tecnológicos e a apropriação destes pela educação, mas traz os ingredientes para mostrar como a chegada das redes permite a emersão de um novo desenho institucional: A Rede Brasileira de Ensino a Distância.

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